O Sistema de Metas Inflacionárias no Brasil, na sua operação, assemelha-se muito a uma âncora cambial. O manejo da taxa de câmbio através da taxa de juros é o mecanismo central do sistema. Mas, o êxito no atingimento do centro das metas inflacionárias por meio da apreciação cambial tem elevados custos. Demonstra-se que tal estratégia tem como resultado final o abandono de um processo de crescimento sustentável, justamente o oposto do que é afirmado no discurso oficial, em que a obtenção de taxas de inflação estritamente compatíveis com o centro das metas é, supostamente, pré-condição para o crescimento no longo prazo.
A inflação brasileira está acelerando?
Para responder a esta pergunta, é necessário diferenciar dois conceitos básicos: aumento/diminuição de aceleração/desaceleração. O aumento/diminuição de uma variável, no nosso caso a inflação, pode ser constatado a partir da observação de dois pontos. Já para constatar uma aceleração são necessários no mínimo três pontos. Entretanto é comum no debate econômico, após a divulgação de um índice mais alto afirmar que a inflação “está acelerando”. Essa afirmação é incorreta, já que os dados do próximo mês ou trimestre podem apontar uma diminuição da inflação. O uso do termo aceleração ao invés de aumento esconde uma hipótese de inércia unitária da taxa de inflação associada a um excesso de demanda permanente. Entretanto, essa hipótese não pode ser imposta a um aparato teórico que visa informar o economista acerca de uma realidade concreta. Deve-se agir na direção oposta, e buscar nos dados econômicos os parâmetros para essas variáveis. Sendo assim, e adotando uma postura mais isenta, utilizaremos os conceitos apropriadamente.
Os dados do IPCA mensal apontam para uma desaceleração da inflação a partir do pico de dezembro. Fica claro que seu patamar aumentou, mas, ainda que mantenham-se os índices verificados no primeiro trimestre, estaríamos ainda dentro da meta definida para o ano corrente.
O mecanismo de transmissão demanda
Primeiramente o impacto da demanda nos preços é dificilmente verificado nos dados brasileiros desde a implementação do Sistema de Metas de Inflação (ver FREITAS 2006). Mesmo que os dados históricos não demonstrem relação entre utilização da capacidade na indústria e inflação, podemos analisar se a utilização da capacidade está em trajetória ascendente, implicando em iminente insuficiência de oferta. O boletim do IPEA de março de 2008 indica que a capacidade ociosa média, apesar de baixa, estabilizou-se em torno de 17%. O documento citado afirma:
“… olhando para os últimos cinco meses, o nível de utilização se manteve estável, em torno de 83%, apesar dos sucessivos aumentos da produção, do emprego e das horas trabalhadas. Esse fato pode ser conseqüência da maturação de investimentos que, tendo acelerado a partir de meados de 2006, podem estar se transformando em aumento de capacidade e em ganhos extras de produtividade”. (IPEA 2008a, p.4)
Por outro lado, o mercado de trabalho poderia estar muito aquecido, gerando aumentos salariais que estariam pressionando a inflação. Cabe destacar aqui que se a inflação decorre do aumento salarial, os salários reais médios estariam aumentando e não diminuindo com o aumento da inflação. Entretanto, a inflação de 2007 não foi decorrente do aumento do salário real e de seu repasse por parte das empresas. O relatório do IPEA destaca que:
“…É válido lembrar, entretanto, que em 2006 o maior responsável pelo aumento de massa salarial foi o crescimento do salário real, enquanto em 2007 o fator preponderante foi o aumento do nível de emprego. Em janeiro de 2008, na comparação interanual, essa taxa de crescimento da massa salarial já se elevou para 7,1%, o que indica a continuidade do ritmo de crescimento da demanda interna. Entretanto, apesar desse forte crescimento de massa salarial, a sua parcela como percentual do PIB mantém-se estável ao longo dos últimos anos”. (IPEA 2008a, p 10)
Ou seja, o crescimento da massa de salário, em 2007, decorreu principalmente do aumento do emprego e não dos salários reais, não havendo indícios de uma falta de mão de obra no Brasil. (muitos argumentam que há uma falta de mão de obra qualificada. Essa afirmação também carece de suporte empírico).
Em suma, nem pelo lado do capital (capacidade produtiva das empresas), nem pelo lado da oferta de mão de obra parece haver restrições do lado da oferta para atender à demanda crescente. Há, portanto, evidências de que mantém-se na conjultura atual o padrão dos últimos anos, em que a demanda não é um fator determinante da taxa de inflação (para uma demonstração de que não há insuficiência de oferta no contexto atual ver VIANA & MODENESI & BRUNO, 2008 )
Cabe aqui destacar que, apesar do discurso do BCB de que o controle da demanda é o principal mecanismo de transmissão da política monetária (como impõe a priori o modelo da nova síntese neoclássica utilizado pelo BCB), em 2007, quando a inflação estava abaixo da meta (com desvio bem maior que o atual, mas para baixo), afirmou-se na ata do COPOM:
“Nesse contexto, diante das incertezas associadas ao mecanismo de transmissão da política monetária e ao ritmo de crescimento prospectivo da oferta e demanda agregadas, o Copom resolveu fazer uma pausa no processo de flexibilização da política monetária.” (BCB, 2007, Item 23).
Tais “incertezas” derivam principalmente da dificuldade de estimar o impacto dos juros na demanda agregada e desta nos preços. Simplesmente é muito difícil conseguir estimar um parâmetro significativo, ou seja, estabelecer uma relação sistemática entre restrições de oferta/excesso de demanda e inflação para os dados brasileiros dos últimos anos. Caso o BCB realmente dependesse desse mecanismo, como sempre reafirma em seus relatórios, certamente não teria tido o enorme êxito no controle da inflação, pois teria em mãos um instrumento de política econômica (a taxa de juros) que busca controlar uma variável (a demanda) que não afeta a inflação, sendo portanto, inoperante.. Fica a pergunta de como foi possível, ano a ano, atingir a meta de inflação se o principal mecanismo e transmissão[1].
O real mecanismo de transmissão – a taxa de câmbio
Há muita confusão ao tratar o regime cambial, inclusive por parte dos críticos da política monetária, ao opor um regime de câmbio Fixo/Administrado à um regime de câmbio Flutuante/Livre. Não há simetria nessa separação conceitual, pois embora por motivo óbvio o regime de câmbio fixo deva ser administrado, o regime de câmbio flutuante pode, teoricamente ser livre ou administrado, e na prática, sempre sofre interferência por parte do Banco Central. (REINHAT, 2000). Em suma, regime de câmbio flutuante significa apenas o que a própria denominação informa, que a taxa de câmbio flutua. No caso do Brasil, a interferência do BCB no mercado cambial é muito forte, tanto atuando diretamente no mercado à vista ao comprar e vender divisas, quanto através da política monetária.
A influência do diferencial de juros (taxa de juros interna, subtraindo-se o risco país e a taxa de juros americana) é muito forte no câmbio (LAVOIE 2000, FREITAS 2006 p.45-81, SERRANO 2006). A taxa de câmbio depende dos fluxos de bens e serviços (inclusive do capital) sintetizados no saldo de transações correntes e, dos fluxos da conta capital. Na determinação dos fluxos da conta capital são muito importantes as expectativas em relação ao movimento futuro da taxa de câmbio. É uma decisão para a qual o conjunto de informações é restrito e, envolve assim uma especulação/aposta idiossincrática e que depende de cada agente.
A partir de 2003 houve uma melhora progressiva no saldo de transações correntes que se intensifica até 2007, concomitante a um ciclo de preços favorável aos exportadores de commodities e uma demanda mundial apoiada no déficit estadunidense. Em suma, tanto o saldo de transações correntes, quanto a oferta de crédito para os emergentes eram positivos. A aposta natural era de uma valorização cambial, caso não houvesse saída massiva pela conta capital,. Algo não esperado, dado o aumento de liquidez internacional.
Somado ao cenário favorável havia uma rentabilidade extra, que variou entre 07 e 17 % , garantida pelo Banco Central através do diferencial de juros. Ou seja, com essas informações, todos apostaram na valorização, que por sua vez catalizou o processo de “fortalecimento” do real. O preço de equilíbrio do câmbio seria outro, caso não se pagasse aos investidores um prêmio tão alto para um investimento com baixíssimo risco (o risco cambial era tendente à zero, pois a desvalorização não era possibilidade, o risco de default também podia ser considerado nulo naquela conjuntura). O resultado foi uma brutal e rápida apreciação cambial, a despeito das expressivas compras de reservas no mercado a vista.
Tal valorização cambial foi a responsável pelo atendimento às metas inflacionárias e o principal mecanismo de transmissão dos juros para os preços. O grande problema desse mecanismo é a defasagem dos efeitos do câmbio no saldo de transações correntes, na medida em que o câmbio valorizado e estimula importações e desestimula exportações. O gráfico abaixo mostra como o saldo positivo de transações correntes é eliminado em 2007, transformando-se em déficit em 2008. Ou seja, o associado a combinação taxas de juros elevadas/câmbio valorizado, que constitui o principal instrumento de contenção da inflação,, tem um limite na restrição externa, que começa a tornar-se aparente.
Extraído de Carta de Conjuntura – IPEA, Março de 2008
Crescimento e estabilidade de preços
Esclarecido o real mecanismo de funcionamento do sistema de metas de inflação, podemos agora discutir a relação entre crescimento e estabilidade de preços. Após muitos anos de crescimento muito baixo e virtual estagnação da renda per capita, o país voltou a apresentar taxas de crescimento um pouco mais robustas. Já foi comentado que o crescimento recente da demanda veio acompanhado por uma maior oferta de produtos e de mão de obra e um aumento do investimento na economia.
O aumento sustentado da produção e do crescimento é muito importante também do ponto de vista do aumento da produtividade, e conseqüentemente, das exportações e da produção interna a preços menores. A tecnologia para produzir um bem, possuir as máquinas adequadas, matérias primas, mão de obra treinada, uma determinada institucionalidade, etc. é um ativo único. Uma vez que determinado fluxo de produção ou setor deixa de operar, todo aquele conhecimento pode ser perdido. Mais ainda, são os agentes do processo produtivo, empresas, trabalhadores e institucionalidade que, interagindo no processo produtivo, habilitam determinado país a incorporar novas tecnologias.
Por isso devem-se incluir tais perdas tecnológicas e de produtividade de caráter permanente nos custos da excessiva oscilação cambial ou de recessões muito pronunciadas. Quando se retorna às condições de câmbio menos valorizado, o sistema produtivo não mais será capaz de mobilizar os recursos produtivos a partir dos novos preços relativos. Esse é um elevado custo da sobrevalorização cambial, pois desabilita o país a absorver tecnologia nos setores deslocados pelo câmbio.
Há um segundo e gravíssimo problema, bem conhecido da economia brasileira: a armadilha financeira que se articula a partir do tripé juros elevado/câmbio sobrevalorizado/ déficit de transações correntes. A taxa de juros elevada permite o descolamento entre a possibilidade de exportar do país (dada pela disponibilidade de mercados externos, os custos de produção internos e a taxa de câmbio) e a demanda por divisas (dada por nossas necessidades de importação e de pagamento das rendas do capital que foi aqui investido na forma de empréstimos e investimento direto estrangeiro).
Esse descasamento vai progressivamente criando uma rigidez na taxa de juros, que é mantida mais e mais elevada com a deterioração das contas do BP. Finalmente, há uma crise cambial, com enorme prejuízo para o sistema econômico, para o crescimento, para a estabilidade dos preços e, para o mercado de trabalho. Essa descrição genérica pode ser exemplificada com o período 1994/2002 no Brasil. Os indicadores em termos de crescimento da renda per capita são bem conhecidos no período. Esse é o grande perigo da âncora cambial, que vem sendo utilizada pelo BCB desde 2004 na sua forma “turbinada”, ou seja, que combina valorização nominal a uma taxa de inflação positiva. Tal política foi possível dado o cenário externo extremamente favorável, tanto do ponto de vista das exportações (em volume e em preços, principalmente das commodities e matérias-primas), quanto do ponto de vista da liquidez internacional.
Uma política visando o longo prazo
Uma política responsável no cenário atual seria de permitir, dada a deterioração nas contas externas, alguma acomodação do câmbio, que por sua vez geraria alguma pressão inflacionária. Se a inflação se mantiver no patamar do primeiro trimestre de 2008, chegaríamos ao final do ano com uma inflação acumulada de 6,2% a.a., ou seja, ainda dentro da meta. Ao mesmo tempo, o governo deveria buscar políticas para eliminar os gargalos setoriais, eliminando as restrições locais de oferta, como, por exemplo, dos alimentos, o maior responsável pelo aumento da inflação em 2008 (os alimentos representam aproximadamente 20% do IPCA).
O principal objetivo dessa política seria manter a economia aquecida e um ambiente macroeconômico favorável para a expansão da capacidade produtiva e do investimento. Tal expansão, à medida que se efetiva, é em sí a melhor política anti-inflacionária, pois opera através da expansão da oferta e não da contração da demanda.
O cerne da questão é que esse ambiente de crescimento, sem ameaças de interrupção, gera mais investimentos, que gera a possibilidade de mais crescimento. É um processo auto-catalítico. Nesse sentido é possível dizer que o crescimento sustentável é pré-requisito para o crescimento sustentável. Conseqüentemente, quando ele inicia, é preciso ser mais permissivo em relação aos ajustamentos de preços relativos engendrados por esse processo.
Crescimento sustentável pode ser definido, para os objetivos imediatos do presente texto, como uma trajetória de crescimento que possui duas características: i) mantém uma taxa de crescimento no tempo e, ao fazê-lo, ii) não cria bloqueios para o crescimento futuro, ou, dito de outro modo, recoloca as condições necessárias para a manutenção do crescimento.
Nas últimas duas décadas, existem dois períodos candidatos a tal definição. São eles: o quinqüênio 1993-1997, cuja média de crescimento per capita foi de 2,39%, e o quinqüênio 2004-2008, cuja média de crescimento foi de 3,05% nos primeiros quatro anos (e assumimos que será mantida para 2008).
O atendimento do segundo quesito não ocorre no primeiro período, já que as crises externas entre 1998 e 2002 levaram a uma estagnação da renda per capita no período seguinte. Essas crises foram possibilitadas pela extrema fragilidade no financiamento do balanço de pagamentos que resultou da excessiva apreciação cambial combinada com taxas de juros extremamente elevadas do período anterior.
Já a classificação do período atual, segundo candidato à caracterização de período de “crescimento sustentável”, depende das condições em que se dará esse crescimento. Ao se manter a política econômica dos últimos anos, em que, dada qualquer possibilidade de aumento da inflação, ainda que dentro do intervalo de segurança da meta, o BCB aumente as taxas de juros, haverá a continuidade da apreciação cambial e deterioração das condições externas do balanço de pagamentos, que historicamente culmina em crises de balanço de pagamentos.
É verdade que atingir o centro da meta é pré-condição para o crescimento sustentável?
Argumentou-se não haver indícios de que a elevação da demanda está gerando aumentos sistemáticos e generalizados da inflação. Por outro lado, o aumento registrado no IPCA dos últimos meses é compatível com a meta de inflação para o ano (dado o intervalo de 2 p.p. para cima ou para baixo). Afirmou-se a partir de outros trabalhos (LAVOIE 2000, FREITAS 2006 p.45-81, SERRANO 2006) que a taxa de juros tem forte influência na taxa de câmbio, e permite que essa se mantenha valorizada mesmo com a deterioração no saldo de transações correntes e nas condições de financiamento do BP. Definiu-se o que se entende, de maneira esquemática, por crescimento sustentável.
A partir dessas discussões é possível afirmar que o país possui hoje duas alternativas: a) a alternativa BCB-setor financeiro que preserva o atingimento da meta inflacionária próxima ao seu centro e tem como custos um crescimento um pouco menor no presente, mas principalmente, uma deterioração nas condições externas de financiamento a partir da eliminação do saldo positivo de transações correntes e ampliação do déficit, associado à destruição permanente de cadeias produtivas decorrente da excessiva valorização cambial, com conseqüências negativas para o crescimento de longo prazo; e b) a alternativa do crescimento sustentável-classe dos trabalhadores, que preserva o atingimento da meta inflacionária dentro do intervalo de segurança, e tem como custos uma inflação um pouco mais elevada, mas busca evitar a excessiva valorização cambial.
A alternativa do BCB
A estratégia do BCB, ao contrário do discurso oficial, é uma estratégia ótima para o curto prazo. Isso por que um aumento dos juros de alguns pontos percentuais tem baixa probabilidade de afetar vigorosamente a demanda e o crescimento da economia. Ao mesmo tempo, a manutenção da taxa de câmbio ou até sua valorização permitirá o aumento da oferta interna de produtos via importação, não sendo necessário ampliar tanto o investimento, e mantendo a inflação próxima ao centro da meta. Ao mesmo tempo, ocorrerá uma piora do saldo de Transações Correntes que recolocará uma rigidez cada vez maior à queda da taxa de juros. Essa rigidez maior decorrerá do fato de que a piora das contas externas é uma grave ameaça à estabilidade dos preços e ao crescimento. Após um período de sobrevalorização e acúmulo de passivos externos, combinados à destruição permanente de capacidade produtiva, o ajuste que se dá via desvalorização cambial tem de ser absorvido pela queda do salário real e pela diminuição do produto. Mesmo nesse caso, é quase certo que a meta inflacionária não será atingida.
A capacidade produtiva destruída pelo câmbio valorizado, e a que deixou de crescer não podem ser repostas quando mudam os preços relativos, ou demoram anos de esforços para que se reconstituam. O descolamento entre as possibilidades de geração de divisas e o endividamento do país, que são gestadas durante longos períodos de juros elevados que sustentam as taxas de câmbio valorizadas precipitam-se num curto espaço de tempo, normalmente numa situação externa desfavorável.
Isso ocorre, pois uma vez montada a armadilha, fica sempre mais difícil a queda dos juros e readequação dos preços relativos à capacidade exportadora do país. Isso porque, à medida em que o déficit cresce, o ajuste do câmbio deve ser mais intenso e, conseqüentemente, o impacto deste ajuste nos índices de preço. A política monetária torna-se cada vez mais rígida, o problema cada vez maior. Nesse contexto, diminui a possibilidade da coalizão política que governa o país decidir absorver os custos do ajustamento, dado seus desdobramentos econômicos e políticos. Isso leva a que a ruptura ocorra apenas nos momentos em que as condições externas são piores, o ajustamento mais difícil e seus custos enormemente ampliados.
Se um ciclo de aumento da taxa básica de juros não é neutro em termos de produto corrente e potencial, assim como em relação ao equilíbrio das contas externas, podemos investigar também suas conseqüências em termos da distribuição funcional da renda (ou seja, qual parcela da renda remunera os trabalhadores, sendo paga na forma de salários, e qual parcela é paga como rendas do capital).
Há no curto prazo dois fatores atuantes. Primeiro, podemos citar o efeito direto da transferência governamental na forma de juros para os detentores dos títulos públicos. Isso ocorre porque a taxa Selic incide diretamente sobre as Letras Financeiras do Tesouro, cujo estoque soma R$ 427,5 bi. Podemos ainda citar os efeitos sobre as taxas que incidirão sobre os títulos pré-fixados emitidos durante o processo de alta da Selic. A tabela abaixo mostra quanto um aumento de 0,25, 0,5 e 1,75 p.p. impacta na transferência na forma de pagamento de juros para os detentores de títulos, no período de um ano:
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LFT |
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Estoque Fev/2008 |
427.528.289.569,24 |
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Aumento na taxa selic |
Variação pgto juros 1 ano |
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0,0025 |
1.068.820.723,92 |
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0,005 |
2.137.641.447,85 |
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0,0175 |
7.481.745.067,46 |
Fonte: Relatório mensal da DPF, fev 2008, STN. Simulação: Elaboração Própria.
É importante notar que tal transferência vem a ser discutida justamente após o governo negar aumento salarial para diversos servidores, bem como propor a diminuição ou atraso de convocação de aprovados em concurso, o que mostra como o Estado pode atuar na direção de piorar a nossa já precária distribuição funcional da renda.
O segundo fator que opera no curto prazo é a valorização cambial, que permite o aumento do salário real. A apreciação cambial permite, em tese, o aumento tanto dos salários reais quanto das rendas do capital, já que o ganho com a valorização se dá em relação ao setor externo. Por um lado, os empresários experimentam um barateamento das matérias primas, e por outro, uma maior concorrência, variando de setor para setor o efeito final nas taxas de lucro.
Devido a esses dois efeitos opostos, o efeito da valorização na distribuição funcional da renda no curto prazo é incerto, mas gera um aumento do salário real e uma queda na carga tributária bruta (dado o maior pagamento de rendas ao setor privado na forma de juros). O efeito na demanda também é incerto e depende, por um lado, do impacto no crédito, e por outro, do efeito renda causado pelo câmbio.
Entretanto, como já discutimos, tal estratégia não se sustenta no longo prazo devido à restrição externa. O que se sustenta é o efeito da taxa de juros sobre as margens de lucro e os spreads. Seguindo a abordagem apresentada por Stiratti (2001), a taxa de lucro deve ser pelo menos igual à taxa de juros, e o aumento desta deve, com alguma defasagem, levar as firmas a reajustarem suas margens de lucro para cima (ou não repassar para os preços boa parte dos ganhos decorrentes da apreciação cambial para adequar tais margens), bem como os bancos a ajustarem seus spreads, aumentando assim o custo do crédito.
A alternativa do crescimento sustentável
A alternativa do crescimento sustentável não é ótima no curto prazo, pois envolve custos do ponto de vista político e econômico. Primeiramente, a taxa de inflação será um pouco maior, ainda que dentro da meta. Em segundo lugar, haverá necessidade de ampliar o investimento público e privado para eliminar os gargalos na oferta, o que demanda mais agilidade do Governo e abre espaço para muitas críticas, já que as deficiências na infra-estrutura e os gargalos setoriais tornam-se evidentes com o crescimento econômico, e existem problemas institucionais para viabilizar a retomada do investimento público que precisam ser equacionados. Por último, deve-se manter a taxa de juros abaixo do patamar atual, sem, entretanto, repassá-la ao consumidor final. Isso porque, o ritmo de crescimento da demanda atual exige um período de adaptação por parte das empresas e principalmente do investimento público em infra-estrutura, que precisa ser retomado. Se a queda dos juros básicos ampliar a taxa de crescimento da demanda para além da atual, associado a uma estabilidade ou pequena desvalorização da taxa de câmbio, pode-se começar a gerar realmente um problema inflacionário. Em suma, essa estratégia é impopular ao aumentar menos o salário real no curto prazo além de ir contra todo o sistema financeiro.
Cabe destacar que embora identifiquemos a segunda estratégia com todos aqueles que dependem da renda do trabalho como principal fonte de renda para sobreviver (daí a denominação trabalhadores) ela é impopular no curto prazo, mesmo para os trabalhadores, pois a taxa de câmbio constante ou um pouco mais desvalorizada implica um salário real relativamente menor, no curto prazo, em relação à estratégia BCB. Entretanto, ao definirmos tal classificação, estamos ponderando de forma mais acentuada a melhora das condições no mercado de trabalho desencadeadas por uma maior demanda por trabalho por parte das empresas. Ademais, essa estratégia é compatível com o crescimento da taxa de salário real com o aumento da produtividade.
O legado da alternativa do crescimento sustentável para o próximo período será uma estrutura de preços relativos que reflete melhor a restrição real de BP do país, um setor produtivo que expande sua produção de maneira sustentável e uma maior oferta de infraestrutura. Mas principalmente, o legado será de um ambiente macroeconômico mais estável, principalmente no que tange à menor probabilidade de um choque externo que comprometa ou a estabilidade dos preços, ou o crescimento e o salário dos trabalhadores, ou ambos ao mesmo tempo. A segunda estratégia só renderá frutos no médio prazo.
Ressalta-se que a manutenção dos juros brasileiros no patamar em que estão, dada a queda na taxa de juros americana, significa a adoção da primeira estratégia, ainda que a um ritmo um pouco mais lento.
Conclusão
É preciso ter em mente, e de maneira clara, quais são as escolhas que a sociedade tem hoje e seus possíveis custos no curto e no longo prazo. Dado o histórico curto-prazista da política brasileira, o grande poder do sistema financeiro e o viés ortodoxo dos condutores da política econômica, temos certeza que a opção que nos será revelada hoje será a do BCB – setor financeiro.
O que não se pode permitir é que o BCB aplique uma política de curto prazo, e informe à sociedade brasileira que se preocupa com a estabilidade no longo prazo. Esta última é conseguida a partir da qualidade do sistema produtivo brasileiro, e não com o atingimento exato do centro da meta no ano corrente.
É preciso ter claro que, na conjuntura atual, o atendimento estrito das metas tem como pré-condição o abandono das perspectivas de crescimento sustentável (ou seja, aquele que perduraria pelos próximos 5 anos, e não apenas de 2008 ) e o pré-requisito para o crescimento sustentável é a queda dos juros e a eliminação do prêmio artificial que o BCB paga aos investidores financeiros e mantém o câmbio artificialmente alto.
Por último, deve-se lembrar que uma vez engendrada a armadilha externa, é muito difícil alterar a taxa de juros e operar os ajustamentos necessários. A chance que o país possui no presente momento de escolher o caminho a traçar, não irá durar muito tempo, na medida em que os custos da mudança, daqui em diante, tornar-se-ão crescentes.
Bibliografia
BCB, Relatório de Inflação. Março, 2000.
____. Ata do COPOM n. 130.
LAVOIE, M. (2000) A Post Keynesian View of Interest Parity Theorems, Journal of Post Keynesian Economics, 2000.
FREITAS, Alexandre Laino Uma interpretação heterodoxa para as relações de taxas de juros, câmbio e inflação no Brasil, 1999-2006. Dissertação de Mestrado defendida no IE – UFRJ. Setembro de 2006.
IPEA Carta de Conjuntura n. 2 Março de 2008
REINHART, Carmen. (2000) “The Mirage of Floating Exchange Rates”, American Economic Review, may 2000.
SERRANO, Franklin (2006b) Uma nota heterodoxa sobre a taxa de câmbio e a balança de pagamentos, IE-UFRJ, agosto 2006 (no prelo).
STIRATTI, A. (2001) Inflation, unemployment and hysteresis: an alternative view. Review of Political Economy, October.
VIANNA, Salvador W., MODENESI, André de Melo, BRUNO, Miguel Reversão preventiva na política monetária. Notas Técnicas IPEA, 14 de Março de 2008
[1] Cabe destacar que o controle da demanda, além de possuir impacto incerto na inflação, além de incerto, leva, segundo o próprio BCB, de seis a nove meses para se efetivar (BCB, 2000). o que significa afirmar que qualquer choque que ocorresse a partir de abril, comprometeria a meta para aquele ano.




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Prezados,
senti falta no artigo de gráficos que mostrassem a evolução do IPCA cheio em 12 meses e das diversas medidas de núcleo (médias aparadas, exclusão, preços livres e não comercializáveis). Estes indicadores vêm mostrando que tanto a inflação cheia quanto as medidas de núcleo vem se elevando. Se a inflação fosse de alimentos, como afirma o governo e uma corrente de economistas, o núcleo por exclusão deveria estar parado ou em queda. O q não está ocorrendo.
Finalmente, o resultado da análise acima é que a inflação cheia (IPCA) ou pelo menos seus núcleos deveriam estar estáveis. O que não está se observando. Logo, me parece haver algum problema com a análise. Se vcs tivessem mostrado uma série histórica do NUCI e do IPCA em um mesmo gráfico veriam q há indícios de correlação entre elevação da NUCI e do IPCA.
Atte,
Joper.
Caro Joper,
No inicio do artigo há uma afirmação de que a inflação aumentou. O que o artigo combate é a idéia de que a inflação esteja acelerando em função de pressões de demanda (ou seja, nega exatamente alguma relação entre NUCI e inflação). Afirma que o único mecanismo efetivo do qual dispõe o BC é a valorização cambial (tal qual no Plano Real), mas que a utilização indiscriminada desse instrumento compromete o crescimento no longo prazo. Não há, portanto, uma incongruência aqui.
Ademais, em qualquer economia capitalista há um elevado grau de interdependência entre os setores, que produzem tanto bens finais como intermediários. Consequentemente, o índice de núcleo por exclusão retira apenas a variação de preços daqueles produtos que compõem a demanda final, e não quando entram como bens intermediários, e portanto é incorreto afirmar que dado um aumento dos alimentos, o núcleo deveria estar estável ou decrescente.
O índice de abril continuou elevado principalmente pelo aumento do item alimentos alimentos (é só olhar os índices na página do IBGE –
http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/noticia_visualiza.php?id_noticia=1140&id_pagina=1) , principalmente dos derivados do trigo, produtos sobre os quais a demanda brasileira não possui qualquer influência sobre o preço. Há uma inflação mundial de commodities que afeta os níveis de preços internos, e portanto é de se esperar alguma elevação dos índices inflacionários. A taxa de câmbio valorizando é a única forma de evitar esse aumento temporário, mas novamente, possui elevados custos e a única vantagem é evitar um patamar inflacionário um pouco maior (esse argumento também já está no artigo).
Finalmente, a relação entre o Nível de Utilização da Capacidade Instalada na Indústria (NUCI) e o IPCA é muito difícil de ser obtida empiricamente, ou dito de outra forma, não há uma relação sistemática entre o NUCI e o IPCA para o Brasil. Essa constatação empírica é dificilmente aceita pelos economistas convencionais, dado que significa negar a existência de uma curva de Philips e aceitar a possibilidade de um crescimento liderado pela demanda. Há um relatório recente do próprio Banco Central que mostra que a relação entre taxa de desemprego e inflação é inversa ao que se esperaria pela NAIRU. Veja também artigos anteriores no CriticaEconômica:
Resposta a Schwartsman II – sobre as hipóteses que sustentam seu argumento
E
Uma interpretação do funcionamento do Sistema de Metas de Inflação no Brasil 1999-2006
Por fim, realmente o movimento recente do IPCA e de seus núcleos é uma informação interessante, que adiciona mais informações para interpretar as causas do movimento recente da inflação (mando gráfico em breve). Entretanto, o recente aumento não implica em problemas e/ou contradiz a análise apresentada no artigo.
Atenciosamente
Alexandre
Alexandre,
Breves comentários:
1. Não é tão difícil encontrar relação entre NUCI e inflação em economias estáveis. Basta dar uma olhada em vasto material obtido no sitema FED (os resultados econométricos estão abertos e podem ser avaliados tranquilamente). Mesmo no Brasil não é tão difícil – nosso problema é q nossa economia não é das mais estáveis…
2. A avaliação do crescimento liderado pela demanda (no sentido q entendo no seu texto) pode ser auxiliada comparando Argentina e Venezuela, de um lado, e Peru, Chile e Colômbia, de outro.
3. A avaliação feita pelos economistas do Ipea (citada no texto) não poderia ter como resultado uma inflação em aceleração (vide dados de abril).
Obrigado pelas respostas,
Atte,
Joper.
Caro Joper,
1. A relação entre demanda e inflação não é algo tão simples como você afirma, mesmo para economias “estáveis”.
Cito dois estudos abaixo que encontraram uma curva de Phillips horizontal para um amplo espectro da demanda utilizando desemprego e hiato do produto, ou seja, para dado intervalo de desemprego ou de hiato de produto, não há aceleração da inflação:
Filardo, A. J. New evidence on the output cost of fighting inflation. Federal Reserve Bank of Kansas City Quarterly Review 83 (3): 33–61, 1998.
Barnes, M. L., and G. P. Olivei. 2003. Inside and outside bounds: Estimates of the Phillips curve. New England Economic Review: 3–18.
Há também artigos que incluem variáveis institucionais, de conflito distributivo que afetam a relação de barganha salarial e de custo , e tais estudos resultam na volta da curva de Phillips Tradicional e não na curva aceleracionista:
Fair, R. (2000) “Testing the NAIRU model for the United States” Review of Economics and Statistics, February
Pollin, R. (2002), “Wage Bargaining and the US Phillips Curve: was Greenspan right about traumatized workers in the 90s?” mimeo, Political Economy Research Institute, University of Massachusetts Amherst.
Setterfield, M. (2005) “Worker Insecurity and U.S. Macroeconomic Performance During the 1990s” Review of Radical Political Economics
Setterfield, M. & Lovejoy, T. (2006). Aspirations, bargaining power, and macroeconomic performance. JPKE, v. 29, n. 1, p. 117-148, 2006.
2. Com isso chegamos ao Brasil. Concordo com vc e com o Alexandre que simplesmente falar que a inflação é só de alimentos está errada. Mas isso não quer dizer que a inflação é de demanda. Ela tem um bom componente de custo, devido a inflação muindial de commodities.
Só como exemplo, o preço internacional do petroleo subiu 76% nos ultimos 12 meses, sendo contrabalanceado por uma valorização cambial, que resultou em um aumento em reais de 45% em reais. Outeas commodities minerais, metais etc também subiram bastante. Como esses componentes são fatores de custo para toda a indústria, com certeza o nivel de inflação aumenta (seja como vc o medir, nucleo, ipca, igpm, etc…). Por outro lado, a utilização de capacidade passou de uma média de 82% para 83% pela CNI. E se olharmos com mais atenção para esse dado agregado, veremos que o setor que mais pressiona a utilização total é o de bens de capital, que pela FGV está em 88% de utilçização em abril de 2008 e o de bens de consumo está bem abaixo.
A pergunta que fica é: com a inflação mundial tão alta, como conseguimos uma inflação aqui no Brasil relativamente baixa? Acho que a resposta está nos salários que crescem pouco, na produtividade que cresce mais que os salários e na política implicita de valorização cambial que vem desde 2003. Não é a toa que o BC preferiu utilizar a taxa de juros e não o controle do crédito, pois sabe que teria muito mais sucesso via câmbio do que via demanda.
Dessa forma, não negamos que possa haver inflação de demanda, mas tão apenas que ela não é causa principal, não é aceleracionista com a demanda e não é persistente.
A discussão de modelos de crescimento liderados pela demanda fica para outra hora…
Atte,
Ricardo
Nassif, em seu último livro, nos revelou uma grande jogada financeira que ocorreu no início do P Real e que enriqueceu alguns ex-professores da PUC-Rio. Na atual gestão do BC está ocorrendo uma jogada muito maior. É a maior jogada da nossa história e uma das maiores do mundo. A valorização cambial e de juros tem sido utilizada para gerar grandes lucros nos mercados de derivativos, principalmente nos swaps reversos que o BC tão “inocentemente” vende e recorrentemente perde. Essas perdas ficaram camufladas no grande prejuízo do BC em 2007, que foi “explicado” rapidamente apenas pela valorização cambial. Dentro desse prejuízo há muitas fontes de receitas e despesas, entre elas os swaps reversos. São muitos bilhões envolvidos que podem explicar entre outras coisas porque a taxa de juros no Brasil é tão alta e porque há tanta oposição ao fundo soberano. A grande razão para a proposição do fundo soberano no Brasil é dar à Fazenda um pouco do controle que o BC exerce sobre o câmbio. I.e., dar à Fazenda poder para impedir ou reduzir a contínua desvalorização do dólar. E por isso que há grande resistência do BC. Ele não quer perder o controle sobre a definição de quem ganha e quem perde, por exemplo, nos contratos de swaps reversos. Ele faz isso controlando ao mesmo tempo o câmbio, os juros e a própria oferta desses swaps. São bilhões, mas é como tirar doce de criança. Não querem que um governo com prioridades políticas interfira nos bons negócios do DEMAB. No DEMAB só há tubarões, capatazes, cegos e surdos.
Filardo, A. J. New evidence on the output cost of fighting inflation. Federal Reserve Bank of Kansas City Quarterly Review 83 (3): 33–61, 1998.
Se alguém me mostrar que esse estudo mostra a curva de Phillips horizontal ou que não há associação negativa entre inflação e desemprego eu dou 10 reais.
Um pouco de honestidade intelectual não faz mal a ninguém. Aliás, alguém aqui acha que o que a Argentina e a Venezuela estão fazendo é crescimento liderado pela demanda? Se for, ainda bem que o tal de Ricardo não é formulador de política (a inflação nesses países não tá se acelerando não, imagina… O povo desses países tá numa felicidade…). No mais, tem um estudo interessante sobre Curva de Phillips para o Brasil que mostra que a hipótese de que ela é vertical não pode ser rejeitada. Ah, o autor sabe econometria.
Caro amigo (por favor, da próxima vez se identifique)
Honestidade intelectual é não distorcer a palavra dos outros. Eu não disse que a curva é totalmente horizontal, mas sim que a “curva de Phillips horizontal para um amplo espectro da demanda”, se você tiver o trabalho de ler meu comentário.
Segue abaixo parte retirada do texto citado, em que o autor encontra uma parte “flat” da curva de phillips, para o parametro de hiato do produto. Há também a figura 4 que mostra claramente uma curva quebrada, com o formato normal nas extremidades mas com uma parte horizontal para intervalo de hiato de produto…
Segue trecho do texto:
“The slope estimates in each of the three
regimes illustrate the nonlinear nature of the
estimated Phillips curve. In the weak-economy
regime, the slope is 0.20. In the balancedeconomy
regime, the slope is essentially flat.
The slight negative coefficient estimate (-0.02)
suggests, counterintuitively, that inflation tends
to fall in this regime when the economy strengthens;
however, the coefficient estimate is statistically
indistinguishable from zero. A more
intuitive interpretation of this coefficient is that
there is not enough systematic evidence in the
balanced-economy regime to give a reliable
slope estimate. In the overheated-economy
regime, the slope is 0.49, more than twice as
steep as in the weak-economy regime. In sum,
the estimated slopes are neither steadily increasing
nor steadily decreasing across the three regimes.” (Filardo, 1998 p. 42).
Essa foi boa.
O fato da curva de Phillips estimada ser horizontal PARA UMA ECONOMIA ESTÀVEL não importa, se a sua “tese” é de que o BC não precisa intervir na economia brasileira que está aquecida (a medida da intervenção sobre a demanda agregada é discutível, assim como é fato que grande parte do aumento da inflação é causado pelo aumento de preços de commodities, sem dúvida). Engraçado isso, pois o artigo mostra para a economia AQUECIDA, a inclinação é grande (tente olhar os números de crescimento dos gastos do governo e da FBKF). Uma pena você não ter captado a mensagem, que era justamente mostrar que ao contrário do que você parece pensar, os custos sociais de se combater a inflação segundo o artigo, nessa situação, não são grandes, eu não distorci o que foi dito.
Economistas heterodoxos da UFRJ tem o péssimo hábito de se apoderar de artigos de autores “ortodoxos” que encontram problemas nas teorias “ortodoxas” ( seria a “ortodoxia” bem mais rica do que certos professores revolucionários apregoam?), e fazer uso disso para falar da demanda efetiva e do investimento induzido. Seria interessante ver um desses fazendo estudos empíricos, e surpreendente, mas usar o instrumental matemático e estatístico é se submeter ao status quo.
O silêncio sobre a situação da inflação na Argentina e na Venezuela é ensurdecedor.
Ah, alguém aqui acha mesmo que os bancos não se beneficiariam com o crescimento econômico? Dou 10 reais pra quem me mostrar o porquê (são os meus interesses rentistas).
Prezados,
concordo plenamente com todas as posições (não com o tom q ele as coloca) do Diabo Neoliberal. A questão é q os diálogos ficam um pouco tensos desnecessariamente. Se é q é possível, pediria calma ao Diabo.
Voltando à discussão, um artigo de Franklin Serrano no Desemprego Zero leva a uma conclusão curiosa: todos os bancos centrais rodam seus modelos de inflação, os parâmetros relativos à influência da demanda agregada sobre a inflação não se mostram significativos e, mesmo assim, eles continuam insistindo. Pq eles fazem isso? Pra aumentar os juros p dar pros rentistas. Mas aí alguém retruca: juro generoso q enche barriga de rentista só no Brasil e em algum outro gato pingado por aí. É isso aí….
Gostaria realmente de ouvir uma palavra sobre Argentina e Venezuela. Principalmente Argentina – q já vem perdendo o apoio até de Rodrik….
Sds.
Caros Joper e João Vieira,
Tentarei responder às suas indagações de duas maneiras, já que ando um pouco sem tempo:
1. Escreverei um texto para postar nesse blog onde desenvolverei melhor o raciocínio da relação entre inflação e aceleração da inflação com a demanda, a inércia e o conflito distributivo e falarei não só do Filardo (1998) mas de todos os outros textos que eu citei no comentário 5; Semana que vem eu publico e continuamos o debate nesse sentido.
2. Respondo as indagações sobre a inflação da Argentina e Venezuela da mesma maneira que respondi por que a nossa inflação esta baixa mesmo com a mundial alta:
“A pergunta que fica é: com a inflação mundial tão alta, como conseguimos uma inflação aqui no Brasil relativamente baixa? Acho que a resposta está nos salários que crescem pouco, na produtividade que cresce mais que os salários e na política implicita de valorização cambial que vem desde 2003. Não é a toa que o BC preferiu utilizar a taxa de juros e não o controle do crédito, pois sabe que teria muito mais sucesso via câmbio do que via demanda.
Dessa forma, não negamos que possa haver inflação de demanda, mas tão apenas que ela não é causa principal, não é aceleracionista com a demanda e não é persistente”
Câmbio: Se no Brasil tivemos desde 2003 um processo de valorização cambial qua amorteceu os choques externos e barateou os produtos importados e exportados, na Argentina não houve esse processo pois a taxa nominal de câmbio foi mantida fixa e na Venezuela a taxa de câmbio se desvalorizou e sai de controle no mercado paralelo (da ultima vez que tive noticias, ela estava 3 vezes a taxa oficial no paralelo). Assim, na Argentina os aumentos de preços internacionais foram totalemnte repassados internamente e na Venezuela eles foram amplificados.
Salários: Se no Brasil o salário não responde bem frente a conjuntura mais aquecida (o salário médio real está estagnado há algum tempo), na Argentina tal fato não é verdade. Na Argentina, o conflito distributivo é mais acirrado que no Brasil e os trabalhadores tem mais poder de barganha para negociar salários nominais, assim esse fator de custo também influencia uma inflação em patamar mais elevado e até em aceleração. A questão salarial na Venezuela eu não sei te dizer, mas acho que vale a pena pesquisar…
Produtividade: Ao que me parece, a forte crise vivida na Argentina na década de 90 varreu grande parte da indústria daquele país (que já não era grande coisa) e os ganhos de produtividade lá são pequenos por conta disso. O que pode levar a duas conclusões: que se deve brecar a demanda por lá ou que em conjunto com a política de manutenção de demanda efetiva alta deve ser feita também uma política industrial bem feita, o que de fato não está ocorrendo por lá.
A Venezuela dispensa comentários, certo? A produtividade lá é baixa, a indústria e agricultura sempre foram pouco desenvolvidas e o país sempre foi produtor unicamente de petroleo. Parece que há avanços (lentos), mas com certeza insuficientes para trazer grandes ganhos de produtividade e abaixar os custos de produção.
Claro que a demanda tem influencia na inflação nesses países. Mas a distinção de outros elementos estruturais nos ajudam a entender quais as diferenças com o Brasil e por qque a inflação lá está tão alta e aqui em um patamar mais baixo.
Acho que é de extrema simplificação reduzir e comparar países apenas por demanda e inflação e achar que a única causa é esta, ainda mais com países tão complexos e com muitas especificidades como Brasil, Argentina e Venezuela.
É isso. Aguardem o novo texto para seguirmos a discussão.
Sds
Ricardo
Ricardo,
não consegui aguardar o novo post.
A comparação é entre dinâmicas de inflação, cujos determinantes são os mesmos em qq lugar do mundo. Olhar a Argentina e dizer q o descontrole da inflação é problema de alimentos, câmbio nominal semi fixo e de falta de política industrial, e q demanda tem pouco peso é coisa q nem mesmo Roberto Frenkel defende mais.
Qual a medida de salário médio real q vc olha? A da Fiesp q tem no Ipeadata não mostra isso. A de massa salarial da CNI tb não……
Aguardo o novo texto.
Sds.
Caros Ricardo e Joper,
Estive afastado do debate por motivos de trabalho.
Quero apenas sublinhar um ponto importante sobre a análise de inflação no que tange ao modelo teórico adotado.
Quando se parte de uma análise do equilíbrio geral, a inflação de demanda é sempre muito importante, dado que o produto potencial é identificado com a utilização máxima de TODOS os faotres disponíveis (inclusive trabalho).
Quando se abandona a análise do equilíbrio geral, a demanda tem um importante papel em “ativar” fatores de produção que o mercado não ativaria expontaneamente. Ademais, como o mecanismo da substituição não funciona, existem outros mecanismos que determinam a remuneração relativa dos fatores, e que podem gerar conflitos que gerem inflação, e portanto, deve-se entender as condições específicas de cada país, embora a teoria sobre o funcionamento dos mercados seja a mesma.
Mas infelizmente esse assunto não “cabe” em comentários, mas achei interessante sublinhar esse fato. Por isso concordo com Ricardo que é importante olhar para fatores como o câmbio real, o parque industrial de cada país, os salários reais, assim como a possível insuficiencia de oferta (que pode muito bem ocorrer, mas que não se parte dela)
Atenciosamente
Alexandre
Caro Joper,
Vc disse:
” Olhar a Argentina e dizer q o descontrole da inflação é problema de alimentos, câmbio nominal semi fixo e de falta de política industrial, e q demanda tem pouco peso é coisa q nem mesmo Roberto Frenkel defende mais. ”
Não disse que é apenas problema de alimentos, mas sim de commodities de maneira geral: Petroleo, minerais e alimentos; Que geram pressão de custo; que via conflito distributivo acirrado são propagados; uma vez que a produtividade lá não está aumentanddo muito e por isso os aumentos salariais acabam sendo repassados em grande parte para os preços; e que se a Argentina tivesse feito uma politica agressiva de valorização do câmbio como fez o Brasil, certamente a história seria bem diferente. (assim como se preocupado desde o começo em conseguir aumento de produtividade por parte de sua indústria).
Se o Frenkel não acha isso, enfim… Foi postado ontem aqui no blog o texto do Fabian Amico, que faz parte do Grupo Lujan de Economia Politica da Argentina, que vai um pouco na linha do que coloquei. Mostra o aumento do salário real desde o fim crise e diz que o NUCI está em 72%.
“Qual a medida de salário médio real q vc olha? A da Fiesp q tem no Ipeadata não mostra isso. A de massa salarial da CNI tb não”
Para o salário real, eu olhei a série do IBGE Rendimento médio real habitual – empregados – setor privado – com carteira assinada. Uma média movel de 12 meses nos mostra que o salário real caiu da grande desvalorização de 2002 até o inicio de 2006, quando aí sim tem um salto de 5% até meados de 2007, e desde então até o presente momento fica estagnado no patamar mais alto (e bem abaixo do que estava antes da desvalorização de 2002). Se fizermos uma relação entre valorização da taxa de câmbio e aumento do salario real, podemos ver que é evidente. Valorização do câmbio aumenta o salário real, o que pode ser bom de um ponto de vista, mas que dmeonstra como os salários estão em situação enfraquecida frente à conjuntura (pois uma desvalorização forte pode impor uma perda real dos salários que dificuilmente se recuperará).
Outro dado interessante de se olhar é o do custo unitário do trabalho. Nele é mostrado a relação entre ganhos de produtividade na industria e salário. No Brasil, o CUT vem apresentando variação negativa, o que quer dizer que os trabalhadores não estão conseguindo barganhar parte da grande produtividade alcançada com o crescimento recente.
Assim, como vc disse, o salário real médio da INDUSTRIA medido pela FIESP subiu desde 2004 (aí tb temos um pouco do fator câmbio), mas isso não se transformou em uma pressão forte de custo porque a produtividade sobressaiu.
O Dado da CNI citado é de massa salarial, ou seja, leva em conta tanto o numero de emprego quanto o salário real e a série começa em 2006, o que nos faz perder a a”historinha ” pra trás desse período.
“Aguardo o novo texto”
O texto está passando pela ultima revisão e sairá, no mais tardar, segunda feira…
Saudações
Ricardo