Por Fabián Amico
Entre as explicações da inflação, existe um amplo cardápio de opções. Na direita ortodoxa, invariavelmente, a inflação é explicada por “excesso de gasto” (usualmente público) ou por “transbordo salarial”, o que configura um quadro de inflação por “excesso de demanda”: se pretenderia consumir mais do que se tem produzido. Por fim aumentam os preços. No fundo do argumento sempre há um governo irresponsável e “populista” que aumenta o gasto e “adoça” a economia com o único e diabólico fim de ganhar as eleições e se perpetuar no poder.
Daí as receitas de frear o crescimento da demanda ou esfriar a economia. O problema com esta tese é que tem existido períodos de baixo crescimento ou recessão com alta inflação, em general as etapas imediatas que sucedem às grandes desvalorizações. O outro problema é que hoje existe certa margem de capacidade ociosa (está utilizando-se cerca de 72% em média) fruto em boa medida de investimentos realizados entre 2005 e 2007. Não parece existir excesso algum de demanda. É notório que muitas análises supostamente críticas costumam ter “recaídas” neste tipo de diagnóstico ortodoxo, associando pressão inflacionária com suposto esgotamento da capacidade instalada.
Oligopólios e preços
Uma explicação mais heterodoxa, freqüente nas análises de esquerda, é que a inflação teria como causa a forte concentração e oligopolização dos mercados. O crescimento dos preços se deveria assim ao fato de que existem grandes grupos empresariais com forte poder de mercado para fixar seus preços, aumentando assim sua margem de lucro sobre os custos (que aumentariam menos). Estes grupos econômicos seriam os que verdadeiramente ganham com a inflação. Não só todo aumento salarial, como mesmo o mais mínimo murmúrio de instabilidade ou de incerteza serviria de desculpa para aumentar os preços. Se põe como exemplo a fixação de preços a um dólar de 4 pesos em 2002 e que logo, depois da diminuição do tipo de câmbio, nunca retrocederam, ou também a evidente concentração das cadeias de comercialização que conformam os hipermercados. A receita aqui é óbvia: se requereria a decisão de regular os mercados e favorecer a competição. Basicamente se sinalizaria para gerar diversos mecanismos de controle de preços, porque a inflação seria o resultado de uma decisão arbitrária e do abuso de poder dos grupos concentrados.
O problema com esta visão é que a oligopolização e os lucros extraordinários são uma regra (sem exceção) na economia argentina nos últimos cinqüenta anos, e a inflação (a elevação generalizada dos preços) não é um fenômeno permanente. Na conversibilidade, conviviam uma altíssima concentração e a existência de lucros extraordinários (e quanto!) com una inflação de 2 ou 3 por cento ao ano. Além disso, a fixação de preços monopólicos após a desvalorização se faz de uma vez (não é algo permanente), consolidando-se logo um novo padrão de preços relativos. Mas não pode explicar as altas generalizadas (aceleração) que começam a ter lugar com força logo a partir de 2007.
Há um ausente notório nas análises heterodoxas e de esquerda acima descritas: os trabalhadores. Nas análises verdadeiramente heterodoxas (clásico-marxistas, kaleckianos), é a luta de classes que explica de modo específico em cada conjuntura as razões da inflação. Mias ainda: a inflação mesma é o resultado geral de um conflito distributivo inerente ao capitalismo, sistema que se caracteriza estruturalmente por uma relação inversa entre salários e lucros.
A inflação atual
Na conjuntura atual, a inflação argentina tem uma origem cambial (devido à desvalorização) com seu conseqüente impacto sobre os custos (especialmente salariais). A inflação dos preços internos dos alimentos é o resultado quase direto da alta dos preços internacionais dos grãos, carnes e outras “commodities” que, por ser o tipo de produtos que a Argentina exporta, se transferem ao mercado doméstico por um “efeito de arraste”. Ademais, este se vê agravado pelo fato de que a soja, dada sua rentabilidade diferencial, está substituindo as atividades agropecuárias restantes na exploração da terra, gerando quedas ou estancamento das outras produções (carnes, cereais e alimentos frescos). Reaparece assim na Argentina a maldição de uma inflação exacerbada, especificamente nacional (é um dos três ou quatro países na historia mundial que sofreu mais de um processo hiper-inflacionário), em razão de que exporta exatamente o que consomem suas classes populares num momento de alta inédita dos preços internacionais de alimentos. Daí que o conflito com o agro tem como pano de fundo o conflito distributivo mais geral com os assalariados. Além disso, num contexto geral de franco crescimento, o desemprego não funciona mais como ferramenta “disciplinadora” das demandas por aumentos salariais. Com redução do desemprego, e dado que há poucos anos se reabriram as negociações salariais pelos sindicatos, logicamente os salários (especialmente os do setor formal) começaram a subir lentamente. Porém, libertada a suas próprias forças, a economia argentina apresenta limites férreos no médio prazo para a redistribuição de renda pela via do aumento do salário nominal. A força de trabalho é o insumo mais difundido, presente em toda a economia. O aumento do salário pode inicialmente estimular a demanda, ampliar o mercado e conduzir a aumentos da produção. Porém, cedo ou tarde, “estrangula” o lucro e se translada como maior custo aos preços, produzindo inflação.
Tem-se argumentado que os salários não podem ser responsáveis pela inflação, posto que arrastam um nível historicamente deprimido. Isto é certo como tendência, mas é o resultado de um longo processo que alternou elevações e quedas reais do salário, como se vê no quadro. Em geral, as quedas coincidiram com grandes desvalorizações (1975, 1981, 1989, 2002) e foram seguidas de recuperações importantes ainda que cada vez menores. Precisamente, o que mostra o gráfico é uma tendência geral do salário real resultante da paulatina debilitação da capacidade de negociação dos trabalhadores que foi impulsionado em 1975.

De tal modo, nos marcos do capitalismo argentino atual, a redistribuição da renda a favor dos assalariados pela via de aumentos nominais de salários só é factível por períodos limitados no tempo. A discussão deste tema é central, posto que há vastos setores de esquerda que alentam como única e excludente estratégia alternativa a redistribuição de renda mediante a alta salarial. Está subjacente a esta estratégia uma idéia confusa não explicitada, e muitas vezes impregnada de conotações éticas, segundo a qual os salários nunca podem ser “culpáveis” da inflação, como se a economia real fosse uma economia planificada. Confundem-se assim a análise normativa (o que a realidade deveria ser) com a análise do modo no qual o salário efetivamente funciona numa economia capitalista (o que a realidade é). Certamente, uma explicação que culpa os oligopólios e ao seu afã de lucro pela inflação crônica “fecha” perfeitamente com essa confusa noção ética acerca do salário. Mas em geral, os oligopólios e todas as empresas importantes tendem a manter constante a margem de ganho. Com esta única condição, as elevações salariais se transferem como maiores preços pela via de maiores custos. Ainda assim, a inflação que deriva do conflito distributivo conspira logo contra a política cambial do modelo vigente, reduzindo o tipo de câmbio em termos reais e diminuindo a competitividade da produção local. Logo, isto tem efeitos adversos sobre o investimento, a atividade e o emprego. Finalmente, com a queda do emprego, torna-se difícil a recuperação salarial.
Neste contexto específico, uma redistribuição de renda em favor dos assalariados só poderia ser o resultado de uma decisão de Estado, um tipo de “pacto” que “discipline” os empresários mediante um plano que envolva metas em termos de que porcentagem do PIB deveriam apropriar-se os salários, quanto de lucro e quanto para o Estado. Para isso, requer-se construir um Estado com “capacidade de arbitragem”, especialmente para impor aos grandes grupos econômicos as pautas estratégicas de tal redistribuição, algo que excepcionalmente se conseguiu na “Idade de ouro” do capitalismo mundial ou nos tempos do primeiro peronismo. Algo que, precisamente, hoje volta a se implantar, lenta e dificultosamente, ainda que com avanços e retrocessos, nos ensaios pós-neoliberais de Equador, Bolívia e Venezuela.
* Traduzido por Raphael Padula.

O problema da explicação da inflação por oligopólio é q no oligopólio apenas o NÍVEL de preços é mais alto. Não há nenhuma razão p que exista variação contínua e elevada deste nível de preços. Ou seja, há confusão entre nível e taxa de variação.
Se inflação fosse resultado de conflitos entre trabalhadores e patrões, todo o mundo capitalista viveria em inflação constante.
Às vezes deixo de comentar os artigos simplesmente porque ainda não tive tempo de ler com atenção. Vejo que nem todos tem o mesmo cuidado.
O próprio artigo critica a noção de que a causa da inflação sejam os oligopólios. A concentração dos mercados pode ser (no máximo) uma explicação para a margem de lucro, mas nunca para o crescimento dos preços, que depende do crescimento dos custos em termos nominais.
Um mesmo grau de conflito distributivo pode estar associado não a uma, mas a diversas taxas constantes de inflação de equilíbrio, dependendo do grau em que a inflação passada se transfere para a inflação corrente.
Caro Fernando,
fiz um comentário específico à parte do artigo que trata de oligopólios e preços. Veja, eu CONCORDEI com o autor. Talvez devesse ter dito: “Fabián concordo com vc….”. Achei q não fosse necessário. Note q não critiquei nenhuma conclusão do autor. Desarme seu espírito.
Qto ao segundo ponto, sempre q penso em conflito distributivo nos termos heterodoxos me vem a idéia de espiral preços-salários.
Atte,
Rufus.
Ok, acabo de desarmar-me mas permita-me dizer que o tom do seu comentário me pareceu um pouco irônico e pareceu estar criticando, especialmente quando disse que havia confusão entre nível e taxa de variação.
Sobre o conflito distributivo como causa de inflação ocorre que pode haver conflito no sentido de uma insatisfação de uma das partes com a situação, mas isso não gera uma espiral indefinida de crescimento dos preços, apenas uma taxa constante de inflação. Isso vai depender da capacidade de reação das partes e do grau de indexação formal e informal.
No caso do artigo ele afirma que o conflito vem à tona devido ao crescimento dos preços dos tradeables que fazem parte da cesta de consumo dos trabalhadores. Isto gera insatisfação dos trabalhadores e demanda por salários nominais, porque o desemprego está relativamente reduzido. Dependendo da capacidade de repasse dos custos aos preços por parte das empresas visando proteger as margens de lucros, poderá haver novas rodadas de aumentos de salários nominais e assim por diante.
Ocorre que o fato de que a insatisfação com a situação distributiva exista não significa que as demandas por salários nominais se transformem sempre em aumentos de salários nominais. Quando o desemprego é muito alto é isto que ocorre. Os trabalhadores acham o poder de compra do salário uma droga, mas nem por isto podem exigir reajustes nominais de salários que possam recompor o salário real. Ou mesmo que isto ocorra pode ser que as empresas podem não estar em condições de reagir. Ou pode ocorrer as duas coisas mas os preços administrados serem desindexados. Em qualquer desses casos pode haver conflito no sentido de insatisfação com a situação distributiva, mas não inflação em permanente aceleração.
abrçs
Me parece que los comentarios al artículo de Amico pecan de una lectura un poco superficial.
Centran las opiniones críticas en puntos de vista casi éticos, como bien escribe el autor, y dejan de lado el tema sustancial: la política. Que, entiendo, es el núcleo de toda la nota. Está planteado un problema de construcción de poder, probelma, por otro lado, central a todo análisis económico.