No presente artigo Bruno Santos mostra, através de dados, que a atual política econômica argentina, implementada no início do governo Kirchner vem apresentando excelentes resultados para o crescimento do PIB e do emprego e uma situação externa confortável, sem causar aceleração inflacionária. O autor contrapõe esses resultados ao discurso ortodoxo, evidenciando neste último, a ausência de uma análise lógica das evidências históricas.
Em meados da década de 90, a Argentina era o exemplo a ser seguido. O país tinha feito o dever de casa e estava colhendo os frutos dessa “racionalidade” econômica. O crescimento econômico argentino entre 1991 e 1994 foi o maior das últimas décadas. O país tinha conseguido eliminar a inflação. E os consumidores usufruíam viagens ao exterior e bens de consumo baratos. No começo deste século, a situação mudou por completo. O país enfrentava um dos maiores desastres econômicos em tempo de paz, nenhum expert em economia conseguia minorar a depressão econômica, apesar de exigir sacrifícios cada vez maiores da população. O FMI concedeu empréstimos o país e ajudou ao país adotar políticas prudentes. Ao invés de melhorar, a crise só piorava. Para complicar, em 2003, foi eleito um presidente nacionalista e populista, que defendia a moratória da dívida externa. Os grandes analistas econômicos não tinham dúvida: a Argentina caminhava cada vez mais para o caos econômico e para a hiperinflação. Contudo, ao contrário de qualquer previsão, a Argentina consegue desde 2003 elevadas taxas de crescimento econômico, a manutenção da inflação em patamares razoáveis e atrair investimentos produtivos.
O fracasso argentino deveu-se a imprudente política currency board e as irrestritas aberturas comerciais e financeiras. Isso gerou um grande prejuízo para a indústria do país. O déficit comercial anual médio de bens industriais nos anos 90 foi de cerca de 20% do PIB industrial argentino de 2005 e fez com que o endividamento externo do país crescesse bastante. Essa política conseguiu reverter um superávit em conta corrente em déficits elevados e persistentes. Entre 1991 e 2001, a Argentina acumulou um déficit em conta corrente de US$ 88,5 bilhões. Isso é mais do que o triplo do que o país exportou em 2001. Obviamente, a capacidade de o país honrar suas obrigações em moeda forte era impraticável caso o país não desvalorizasse o câmbio. Contudo, pelo dogma ortodoxo do equilíbrio geral, a determinação do preço de uma mercadoria (no caso o câmbio) não poderia alterar os preços relativos de longo prazo da economia. O diagnóstico, como sempre, não poderia deixar de culpar os excessos do Estado. A solução seria os cortes dos gastos do governo, medida que foi muito importante para contribuir com a forte queda do PIB.
Em contraste com esse prognóstico, os resultados do governo Kirchner são surpreendentemente positivos, apesar do esperado fracasso de suas políticas. Entre 2003 e 2006, o PIB cresceu em média 9% ao ano. O crescimento acumulado da Argentina nesse período é maior do que o do Brasil entre 1990 e 2006, quando os ortodoxos dominaram a política econômica brasileira. A inflação hoje é bem menor do que em 2002 ou o que se esperava em 2003. As reservas internacionais quadruplicaram. O país pagou antecipadamente sua dívida com o FMI. O desemprego e a pobreza diminuíram fortemente. O risco de crise financeira ou do balanço de pagamentos é improvável, pois o país tem conseguido manter superávits em conta corrente, mesmo com a economia crescendo a taxas tão elevadas. E o país tem registrado diversos investimentos para a ampliação do parque industrial, a despeito dos analistas terem afirmado que a moratória afastaria os investidores estrangeiros.
Porque a Argentina atualmente é bem-sucedida? Em primeiro lugar, o governo adota uma política monetária-cambial favorável ao crescimento. O governo tem sido muito bem sucedido em manter uma taxa de câmbio competitiva. Desde 2003, a taxa de câmbio real efetiva tem se mantido estável, ao contrário de outros países que enfrentaram grandes desvalorizações. Essa taxa de câmbio estimula as exportações, a substituição de importações e o investimento em produtos comercializáveis com o exterior. Em 2007 deve ser o sétimo ano seguido de superávit em conta corrente, apesar da forte expansão da economia. A taxa de juros real próxima de zero tem impulsionado o crédito e os gastos ao consumidor. Em segundo lugar, o governo pratica uma política de aumento do salário real e de conter o aumento das tarifas públicas. Nos últimos três anos, a expansão dos gastos em consumo privado cresceu em média 8,9% ao ano. E, a contenção do aumento das tarifas públicas permitiu a estabilidade da taxa de câmbio flexível e da inflação. Desde 1999, os preços regulados aumentaram 43%, bem menos do que os 93% do nível geral de preços. Os bens e serviços com preços regulados representam 20% do IPC e são compostos por combustíveis, eletricidade, água e serviços sanitários, transporte público de passageiros, manutenção de veículos, correio, tarifas de telefonia e cigarros.
A experiência da Argentina nos últimos 15 anos é um exemplo radical de como uma taxa de câmbio supervalorizada pode ser prejudicial ao desenvolvimento, enquanto que uma eficiente política cambial e comercial centrada na competitividade industrial e nas contas externas permite a execução de políticas monetária e fiscais expansionistas com pouco risco de ocorrência de crises financeiras.
Grafico 1 - Contas Externas
Fonte: OMC e FMI
Gráfico 2 – Reservas internacionais da Argentina (US$ milhões)
Fonte: BCRA
Gráfico 3 – Taxa de câmbio real efetiva (dez/2001 =100)
Gráfico 4 – Inflação de 12 meses (IPC)
*Taxa de inflação 12 meses até maio de 2007.
Fonte: INDEC
Gráfico 5 – Pobreza e indigência: 2003 a 2005 (% da população)
Fonte: Elaboração própria a partir de dados do INDEC
Gráfico 6: Taxa de desemprego: 2003 a ao primeiro trimestre de 2007 (em %)
Fonte: Elaboração própria a partir de dados do INDEC
Gráfico 7: Produto interno bruto – variação percentual





Bruno,
Parabéns pelo artigo.
Acrescento ainda que mais importante que mostrar que a inflação não está acelerando, é importante mostrar que ela está em patamar elevado porque ” o governo pratica uma política de aumento do salário real”, como você disse (você teria esses dados para incluir no texto?). Ou seja, há ganhos reais sucessivos por parte dos trabalhadores há um bom tempo e isso não acelera a inflação. E isso em concomitancia com aumento menor no preço dos serviços públicos, o que melhora ainda mais o poder de compra e o nível de vida do trabalhador. Dessa maneira, tanto faz se a inflação é 5, 8 ou 10 se ela não tende a explodir e ainda por cima ela reflete em grande parte a melhora de vida de parcela considerável da população.
Senti falta de um dado, que você apenas mencionou: a formação bruta de capital fixo. Sempre ouvimos dos ortodoxos que o crescimento da Argentina não é sustentado porque o investimento é pouco. Mas confesso que desconfio desse fato, como desconfio de quase todos os outros fatos levantados pelos ortodoxos.
Índice de preços na Argentina forjado pelo governo.
Heterodoxia retrógrada.